Destaques das Semanas de Moda Digitais e Novos Formatos de Coleções

A pandemia do COVID-19 trouxe uma série de reflexões, crises e novidades para o mundo da moda. Durante a temporada de semanas de moda, com restrições de aglomerações, o isolamento social trouxe o novo desafio: como apresentar coleções de formas que emocionem tanto quanto os desfiles de moda?

É inegável que os desfiles e semanas de moda são os maiores movimentos do setor de moda. Um desfile de uma grife ou uma semana de moda do circuito principal é responsável por mover milhares de pessoas para uma cidade, movimentar centenas a milhares de profissionais e gerar valores inimagináveis de mídia espontânea e engajamento nas redes sociais. A Jacquemus é prova viva disso, com cases e cases de viralização de seus desfiles e conteúdo através das redes socias, seja no Instagram ou no TikTok (sim, no Tiktok, e se surpreender com isso já ficou cafona).

Em um momento tão crítico como o que vivemos, em que até grandes marcas tem sofrido fortes impactos financeiros (nessa semana a Burberry anunciou a demissão de 500 funcionários, devido ao faturamento 48% inferior), perder a maior carta na manga é preocupante para todo o setor da moda que depende desses desfiles e semanas de moda; e não, não são só grifes que se beneficiam das Fashion Weeks. Pequenas e médias marcas e designers ganham muita visibilidade (que se convertem em vendas) através dessas semanas e, ainda, ganham com a venda das peças-piloto desfiladas.

Talvez, por isso as semanas de moda foram mantidas e tentaram se reinventar e não foram apenas canceladas.

Com o fim da temporada de moda digital – ou não para as marcas que optaram por fazer desfiles físicos – vimos a London e a Paris Fashion Week acontecere de forma completamente digital e Milan Fashion Week de forma híbrida. Ao final delas, essas novas formas de apresentar coleções conseguem emocionar tanto quanto os desfiles?

Para deixar você tirar suas próprias conclusões, separamos aqui alguns dos destaques e formatos mais inovadores de apresentar coleções e fazer com que esse conteúdo seja valorizado assim como nos desfiles.

Viktor & Rolf

A dupla é conhecida pelo exagero e irônia de suas peças, criando looks mega expressivos e altamente viralizáveis nas redes sociais. Não foi diferente dessa, vez. Viktor & Rolf criam uma coleção de alta costura dividida em 3 seções, que ilustram alguns dos sentimentos durante essa quarentena. No vídeo, os modelos são desfilados com uma narração que explica um pouco da coleção (uma substituição dos press kits e folhetos que ficam nas cadeiras dos desfiles?).

Loewe

Algumas semanas após utilizar o Shoe-in-a-Box para sua própria marca, a JW Anderson, Jonathan Anderson a repetiu na Loewe. A ação consistia em enviar uma caixa com uma série de materiais que traduzem o processo criativo de forma muito sensorial para as personalidades que normalmente agraciariam a primeira fileira do desfile (como um press kit super elaborado). Além disso, a marca também criou uma imersão de 24 horas de conteúdos e conversas em um mini-festival de artes para todos os fusos-horários. Uma forma de contar e honrar a história e o trabalho daqueles que fazem tudo aquilo acontecer, segundo o designer. Para a apresentação das peças em si, a Loewe optou por apresentá-las em manequins mesmo, que acabou gerando um resultado surpreendente!

Prada

Existia muita expectativa em torno dessa coleção, já que seria a última solo de Miuccia Prada, antes da co-criação com Rick Owens, que estreia na marca em setembro. Talvez por isso o nome escolhido: “The Show That Never Happened” (O show que nunca aconteceu, em tradução livre), ok, talvez ele não tenha acontecido da forma que todos esperávamos mas ele aconteceu, e aconteceu de 5 maneiras diferentes. É que Miuccia convidou 5 artistas para interpretarem a coleção de suas formas e compilou tudo no vídeo de apresentação da coleção, chamado de Multiple Views (Múltiplas visões).

Sunnei

A marca, que permaneceu meio misteriosa por um bom tempo, chamou a atenção de vários olhares com essa coleção. Chamada de Sunnei Canvas, a coleção conta com 20 looks, todos modelados em CGI, ou seja, modelos completamente digitais e em sua maioria, brancos. A explicação é simples, a marca aposta num modelo de co-criação, em que os consumidores podem customizar e fazer escolhas relativas à cor, cortes e modelos em cima desses vinte “templates” da marca.

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Spring Summer 2021 part I

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Botter

A marca alemã Botter utilizou seu espaço na Paris Fashion Week Masculina para criar um manifesto em prol do movimento Black Lives Matter. Em um momento tão delicado e com as discussões de antirracismo tão em pauta, chega a surpreender vermos tão poucas manifestações de grandes marcas. No entanto, a marca usou do audiovisual a seu favor e criou um curta-metragem com um forte manifesto antirracista, muito mais forte, inclusive do que uma camisa estampada passando durante um desfile, né?

Maison Margiela

Não surpreende que a Margiela tenha entrado de cabeça nos novos formatos sem medo. A marca tem um histórico super disruptivo e de estar a frente de diversos movimentos da moda. Para esse momento, a Margiela lançou um documentário, dirigido por Nick Knight, retratando não apenas a coleção como também seus processos. Um lookbook e diversos teasers também foram lançados, estes, também assinados por Knight.

Gucci

A Gucci apresentou seu ‘Epílogo’ em uma transmissão ao vivo com 12 horas de duração para a preparação do shooting da coleção. O campanha em questão, feito com os próprios estilistas da marca em uma tentativa super interessante de valorizar as pessoas que criam as peças como os próprios modelos que as vestem. A campanha ainda traz a estética de polaroids de modelos pré-desfile, com detalhes do styling em post-its na foto.

Valentino

Na dúvida se os vestidos seriam tão grandiosos no vídeo quanto ao vivo, Pierpaolo Piccioli alongou seus vestidos em muitos metros. Com as modelos no topo de imensos pedestais cobertos pelos – literalmente – grandiosos vestidos, as peças ainda receberam projeções de vídeos feitas em parceria com Nick Knight que deram vida e movimento aos vestidos, em sua maioria, brancos.

Do outro lado da inovação

A MFW escolheu o formato híbrido, quem quisesse fazer desfiles virtuais os faria, mas os desfiles físicos estavam liberados com um número reduzido de convidados e medidas de segurança. Apenas três marcas optaram por esse modelo: Dolce & Gabbana, Etro e Jacquemus. Vindo de uma marca com um histórico tão incrível nas redes sociais, que sabe usar os meios digitais a seu favor como ninguém, a decisão da Jacquemus veio como uma surpresa – e decepção – para muitos.

Seja por falta de tato, ou então buscando um escapismo ao fugir da situação do enclausuramento e do digital, a verdade é que a escolha dessas marcas foi bem controversa, especialmente considerando as medidas de segurança bem questionáveis – modelos e convidados vistos frequentemente sem máscaras, máscaras no queixo e aglomerações no backstage.

Por mais que o formato do desfile seja cômodo e extremamente glamuroso, também conseguimos apreciar as diversas possibilidades que uma produção audiovisual traz para uma coleção. Entender e apreciar esses novos tipos de produção e formatos é valorizar o pézinho (ou o corpo inteiro) da moda que é inserido na arte. É claro que esses novos formatos podem causar um estranhamento a todos nós, mas passado esse momento, a moda só tem a ganhar com a exploração de novos formatos virtuais e, principalmente, com a criação de conteúdo que mistura aspectos físicos e digitais.

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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