Marcas independentes de Rework: a nova leva que tem transformado o upcycling em estética

A técnica de upcycling e a reciclagem de roupas não é nenhuma novidade na moda. A técnica é muito aplicada, há tempos, em projetos sociais por necessidade ou mesmo pelo valor sustentável de dar vida nova a “velhas roupas”, por exemplo, mas nunca havia recebido a nomenclatura de tendência, ou ocupou o Instagram dos fashionistas tanto quanto agora.

Uma nova leva de marcas independentes de moda tem feito do upcycling não apenas uma técnica sustentável, mas uma estética cada vez mais cobiçada. Além disso, redes sociais como o Depop (onde se comercializam exclusivamente roupas customizadas) e o Tiktok, onde você não vai demorar muito até encontrar um vídeo de alguém customizando alguma peça ou transformando-uma-calça-de-brechó-em-jaqueta-estilosa.

É possível que você já tenha visto por aí no corpo de artistas e microinfluencers peças que parecem uma colcha de retalhos, com costuras aparentes e que não escondem que são costuradas uma em cima da outra ou pertencentes a peças de roupa diferentes. Por muito tempo, o upcycling na moda (a reciclagem de roupas) tentou, ao máximo se assemelhar a peças novas para ser bem aceito, mas parece que é esse estilo honesto do “Rework “, cheio de recortes e costuras, que conseguiu levar a técnica para o mainstream e transformá-la numa tendência de moda (aqui, no sentido superficial da palavra mesmo).

Brocki Vintage

É questionável o quão positivo transformar o rework em uma tendência estética já que, abre espaço para que marcas e o fast-fashion se aproprie da estética sem partilhar dos mesmos preceitos sustentáveis. O Upcycling e o Rework é baseado na reciclagem de peças já existentes, ou seja, produzir peças novas com essa estética vai essencialmente na contramão do movimento. Além disso, entender a reciclagem de roupas como tendência pode abrir precedentes para que, assim como tantas outras, essa tendência seja esquecida após alguns meses ou anos e não leve a um grande avanço da pauta da sustentabilidade de forma efetiva.

No entanto, é fato que as peças de rework tem conquistado cada vez mais consumidores. Para entender um pouco melhor esse movimento, a Brocki Vintage e a Lâmina, nos contaram um pouco da sua história e do que percebem desse movimento atual.

Brocki Vintage

A Brocki surgiu há pouco mais de dois anos da mesma forma como a maioria dos brechós. Lucila Serrano já garimpava peças para si mesma e teve vontade de vender algumas peças que já não usava mais no Enjoei. Ela chegou inclusive a abrir uma loja física para o brechó, mas tudo teve que ser reorganizado com o início da pandemia do Covid-19 no Brasil. Não tinha mais como garimpar peças em segurança e as que Lucila já tinha em casa começaram a não agradar mais. Foi aí que surgiu a ideia da customização.

“No início eu comecei fazendo peças meio a meio, metade de uma cor, a outra de outra, uns tops com blusinhas de cetim que tinha paradas e fui buscando mais ideias levando em conta as peças que eu tinha em casa mesmo.

E nesse meio tempo eu tinha visto uma marca chamada ASAI que fazia umas blusas com a costura aparente em tule que custavam o olho da cara e eu queria algo parecido para mim, levei a ideia pra minha costureira e ela disse que não montaria um quebra cabeça, eu teria que cortar as peças tudo em casa, alfinetar tudo e aí levaria para ela passar as costuras e finalizar. E foi isso que fiz, ela me ensinou a cortar as peças e a alfinetar. Fui para casa separei as peças e comecei a fazer isso, fui encaixando retalhos nas peças, retalhos esses que sobravam das blusinhas que eu deixava cropped.” Conta.

O perfil da Brocki Vintage cresceu rapidamente nas redes sociais, com quase 11 mil seguidores no Instagram, algo que não foi exatamente planejado: “Não comecei a trabalhar com Upcycling e Rework com intensão de bombar no Instagram, eu precisava fazer algo com as peças que tinha em casa, eu não tinha outro emprego, precisava resolver meu problema ou ficaria sem pagar as contas. Eu imaginei que outras pessoas curtiriam as peças (os meus 2 mil seguidores na época) mas não que meu brechó iria crescer por isso. Hoje em dia vejo que sim, ter uma peça única é muito incrível, criar uma peça única a partir de algo que já existe é muito incrível e muito prazeroso pra mim.”

Quando questionada sobre a estética do rework e a possibilidade de apropriação disso por grandes marcas ou pelo fast-fashion, Lucila respondeu que “Sim, a estética das costuras aparentes é o que tem chamado mais atenção nessas peças e foi o que também me chamou atenção, foi o que me fez querer ter uma. Acredito que infelizmente vai rolar (a apropriação), quando essas marcas se deparam com algo que está chamando atenção das pessoas, elas tendem a pegar isso, replicar e vender em longa escala. 

Mas também acredito que nós consumidores precisamos nos preocupar cada vez mais com isso e repensar de onde estamos consumindo. Já fazem alguns anos que eu só consumo de brechós e pequenas marcas, são poucas as peças que compro de grandes marcas, só o que eu realmente necessito e não consigo achar em brechó. “

Lâmina

Laura Luiza começou a compartilhar suas criações há mais ou menos 3 anos, no instagram da Lâmina. Para ela, a ideia também partiu do garimpo: “Eu só usava a peça garimpada para fazer simples ‘custom’. Entretanto, a ideia se expandiu de tal maneira que comecei a garimpar todo tipo de roupa e, utilizando minhas próprias técnicas (costura aparente, aplicação de estampas), ferramentas (linhas de bordado, caneta de tecido, alfinetes) e criatividade próprias, começaram a surgir peças mais trabalhadas e inovadoras. As peças foram se aperfeiçoando à medida que fui arriscando e experimentando ideias que achava que só conseguiria fazer na máquina de costura, mas, com o tempo, vi que podia ir além utilizando o próprio trabalho manual que já realizo. Hoje entendo que o que sempre fiz pode ser considerado upcycling: movimentar uma cadeia de moda consciente, com o menor desperdício e o maior reaproveitamento possível de todas as peças que adquiro”

Sobre a estetização do upcycling e estarmos vendo isso se tornar, cada vez mais, uma tendência de moda, Laura aponta que: “Por um lado, acho que isso faz parte das tendências. Elas vem, elas vão. E quanto mais elas vem e atingem um número maior de pessoas, muitas outras mais poderão se sentir atraídas para “estar na moda”. E por outro lado, e provavelmente o diferencial, é que moda não é só sobre roupa e vestir tendência, principalmente quando falamos de moda consciente. Mais marcas independentes com processos de upcycling estão surgindo, cada uma com sua identidade, e isso influencia muito na decisão de escolha. Gosto de ver como uma oportunidade de atingir novos públicos para todo o contexto que faz parte da criação desse conceito. As vezes tenho a impressão que as pessoas vêem o sustentável como algo muito distante, um processo muito extenso e complexo de trabalho. E ele é um trabalho extenso e complexo mesmo, mas que começa do simples.

Mas ela não deixa de expressar a preocupação com a apropriação da grande moda sobre o upcycling e esvaziamento da causa: “A moda está sempre se atualizando e as grandes marcas e fast fashion fazem um trabalho pesado de encontrar e lançar tendência de acordo com a necessidade do público. Vai acontecer (já acontece!) e não tem como competir. Elas atingem números muito mais consideráveis de consumidores e espalham tendência com muito mais facilidade. É importante que pequenos negócios que existem há mais tempo ou também que estão chegando agora, se fortaleçam e ganhem mais espaço. Quanto mais pessoas conseguirmos atingir, a longo prazo, a conscientização vai ser cada vez maior sobre do que se trata e de onde vem essa estética de reaproveitamento. Ganhar voz e pressionar marcas para que não apenas se apropriem, mas que escolham pessoas que já trabalham com esse processo para trabalhar junto, vendendo ideias, ressignificando roupas ou criando conteúdo na internet sobre moda sustentável e consciente, por exemplo. Mas de forma transparente, que valorize e respeite o trabalho dos profissionais (bordadeiras, costureiras, artesãs, empreendedoras) e pessoas que há anos já se esforçam pelo movimento. Precisamos de ações que impulsione o que ainda não é reconhecido e valorizado como deveria.”

Enquanto seu feed pode ter sido inundado por essas peças ultimamente, é importante lembrar que o trabalho de upcycling e rework de marcas pequenas, independente e, principalmente, brechós, não é de hoje. Se essas tendências chegam nas passarelas e grandes marcas é, provavelmente, porque muitos criadores independentes fazem isso há bastante tempo e são estes que merecem o nosso apoio e suporte.

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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