Como a moda 3D possibilitou o lançamento de uma coleção durante o Isolamento

Se você é antenado na indústria da moda, deve ter visto em seu feed fashionista modelos ou influenciadores digitais. Até marcas que produzem looks exclusivamente digitais para serem fotografados e repostados tem ganhado seu espaço no mercado. A realidade é que a pandemia nos obrigou a entrar cada vez mais em contato com o nosso eu robô (piadinha completamente intencional) e ficarmos confortáveis com as experiências digitais.

Por mais que toda essa história de roupas, influenciadores e avatares digitais, e até looks produzidos para The Sims pareça um futuro meio distópico, as tecnologias de design 3D pode trazer uma série de inovações para os processos de criação de moda.

Clara Bessel, designer de moda 3D, explica: “Trazer o 3D como expressão artística na moda é incrível, toca um imaginário para além do que é possível ser feito na realidade. Já o 3D como design tem objetivos mais práticos, focando em otimizar processos e recursos. É importante entender essa diferença, entender que ambos podem vir juntos, mas que cada um tem um objetivo específico. Campanhas na moda totalmente em 3D, com modelos virtuais idênticas às reais, produtos virtuais e tudo mais, pode assustar um pouco quando pensamos no virtual como um substituto do real. Pode ser até que com o tempo canse visualmente.”

É importante entendermos o valor do design 3D enquante arte e estética, independente de seu utilitarismo. Mas, se a questão é funcionalidade, o 3D também não deixa a desejar.

O designer brasileiro Alexandre Brito, lançou sua coleção de forma completamente digital, com o trabalho de Clara e aponta que foi justamente essa tecnologia que permitiu tirar a coleção do papel com o mínimo de riscos possíveis durante o isolamento social.

Recentemente retornado de Londres, o desenvolvimento dessa coleção veio para Alexandre Brito como uma forma de lidar com a quarentena e o isolamento, a princípio, sem pretensões. No entanto, quando se deu por si, a coleção já estava tomando forma.

Sem um ateliê próprio, terceirizar esse processo e fazê-lo todo presencialmente, aos moldes comuns não parecia viável para o designer. “O 3D ele já vem com tudo isso, para você fazer o 3D você vê o caimento do tecido, você vê perfeitamente a roupa, faz a proporção certa dos tamanho que quiser” explica Alexandre.

No site do CLO3D, plataforma de design 3D específica para a moda, um infográfico busca explicar como esse processo de modelagem é facilitado pelo software.

Todo o processo de produção e ajustes de pilotos e modelagens pode ser acelerado e não necessita de nenhum material físico, à medida que pode ser feito de forma completamente digital, inclusive com escolhas de tecido, texturas e simulações de caimento no corpo. “Na indústria da moda ainda tem muito o que ser aperfeiçoado em relação aos processos. Acompanhar um fluxo de desenvolvimento de produto é basicamente um vai e volta de informações, alterações, amostras vindo e voltando, são gastos extras, tempo desperdiçado, matéria prima pro lixo, trabalho extra e cansativo que poderia ser evitado. ” conta Clara.

Para Clara, é por aí que o virtual entra como solução para esses problemas: “Construir os produtos virtualmente, gerando modelagens que serão impressas quando (virtualmente) aprovadas, checando a vestimenta em um avatar com todas medidas reais, visualizando o produto além de um rascunho pra ter certeza de que todos detalhes, caimentos e informações estão bons, para só então comprar os insumos e construir a amostra, faz com que o fluxo seja muito mais certeiro e planejado. O 3D inclusive aponta informações ergonômicas, o que está apertando, repuxando, se o caimento em tal tecido ficará bom. Tudo é tão fiel que ao checar uma amostra real em um corpo real, as chances de serem conforme a tela mostra são muito grandes.”

Nesse sentido, Alexandre concorda que “Eu acho que o 3D veio pra ficar e para nos ensinar a sermos mais práticos e não só para esse momento da pandemia. Ele tira todo esse processo que eu amo (de prova de roupas, de modelagem e moulage) e já tem isso tudo pronto. “. Ele nota, no entanto, que essa tecnologia facilita o trabalho do designer de moda, mas que é bem complicado e trabalhoso. para o designer 3D, já que exige uma série de ferramentas, desde expertise técnica nos softwares até um computador capaz de rodar essas programas.

Esses fatores poderiam acarretar numa dificuldade de acessibilização dessa tecnologia, tanto por parte das empresas, quanto dos trabalhadores. Sobre isso, Clara pontua: “Os programas de 3D também precisam de uma máquina que tenha algumas capacidades extras para rodarem bem, processadores e placas por exemplo. O ideal é que o processo de 3D seja acessível para todas empresas, independente do porte ou investimento disponível. Existem empresas terceirizadas que desenvolvem esse serviço, e algumas marcas já tem esse processo internalizado. É importante entender o valor desse serviço, uma vez que é um trabalho complexo, que demanda investimentos (físicos e intelectuais), tempo e cuidado, mas que esse valor no final das contas servirá para economizar com os outros vários gastos que surgiriam caso fizesse o processo da forma convencional (testes de prototipagem física). “.

As possibilidades do design 3D e da moda digital na indústria são inúmeras. Desde a apresentação de coleções até a diminuição de falhas no processo e na prototipagem. Esses processos, no entanto, exigem uma série de competências técnicas e mesmo materiais (muitas vezes, caros), o que, infelizmente pode dificultar ampla disseminação desses processos no mercado de moda. Além disso, não é viável entender esse novo modelo de produção sem pensar onde os profissionais componentes desses processos físicos serão enquadrados em uma nova realidade.

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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