Entendendo o consumo local em uma economia globalizada

Nos últimos tempos, (principalmente após o início a crise do COVID-19) temos visto um movimento de apoiar produtores locais cada vez maior. Quando surgimos, lá em 2018, foi com a premissa de apoiar e cobrir as Marcas Locais de moda, mas, em um mundo globalizado, o que é uma marca local?

Para entender melhor, conversamos com alguns empreendedores e pequenos produtores locais de moda, que deram seus depoimentos e relatos sobre o movimento de consumo local e seus meios de produção. Para quem é de texto, só continuar lendo, já para quem é de vídeo:

É gerar emprego, perceber que através da marca estamos contribuindo para que famílias se sustentem. É também sobre respeitar o tempo de produção das coisas, o que traz  mais valor ao que se consome, e não somente produzir e descartar.

Renata Rosa, estilista da marca carioca, Santa e Nuvem

As origens do ‘consumir local’

Pra compreendermos melhor essa questão, é preciso entendermos a origem disso tudo. O movimento de consumir de produtores locais vem, primeiramente, do setor de alimentos, principalmente da agricultura. Grande parte desses alimentos são perecíveis, e (dentro outros motivos) para aumentar a durabilidade para o transporte para diversas regiões do país, grandes empresas usam quantidades enormes de agrotóxicos em plantações. A ideia de consumir local, portanto, vem por uma série de motivos, desde fortalecer a economia local até a menor presença de agrotóxicos nos alimentos de produtores locais e da agricultura familiar.

Dessa forma, no setor alimentício, consumir local tem, necessariamente, uma relação com a proximidade geográfica entre produtor e consumidor. No entanto, esse movimento foi sendo adotado por outros setores (como o da moda) que não enfrentavam esse empecilho da distância e do transporte.

A moda produz bens duráveis e, ao contrário dos setor alimentício, para fortalecer pequenos produtores e negócios familiares, não há a necessidade de consumir apenas de marcas que estão próximas.

Foto: Santa e Nuvem/Divulgação

Marcas locais são marcas da minha cidade?

É inviável que pequenos empreendimentos de moda dependessem apenas daqueles da própria cidade ou região para seu sustento. O discurso de comprar local não deve ser limitante, mas sim um movimento abrangente de apoio a pequenos produtores.

Para Renata Rosa, da marca carioca Santa e Nuvem: “Acreditamos que (o consumo local) deve sim ser mais abrangente. Por economia local entendemos tudo que é produzido no Brasil, que deve crescer e se fomentar como um todo. A região sudeste movimenta grande parte da ecomomia no Brasil e o poder de consumo muitas vezes fica concentrado na região. Isso deve circular. Apoiar também é sobre procurar por pequenos produtores fora da nossa bolha.”

Para Marcella Mouli, designer de moda mineira e criadora da Diwo Collab, essa questão é bastante subjetiva: “Apoiar o comércio local é se responsabilizar pelo microsistema ao seu redor. Pra mim, é muito importante isto porque nos acostumamos a delegar para grandes instituições o destino do que dá certo, do que pode crescer, do que vai ser ou não fomentado. Mas acho perfeitamente natural quando este consumo extrapola os limites do local, porque nem sempre o local vai prover todas as minhas expectativas.”

Diwo Collab/Divulgação

Nesse contexto, consumir local tem mais a ver com comprar de marcas que produzem localmente do que, necessariamente que estão geograficamente localizadas no mesmo lugar (cidade, região ou estado) do que você. É claro que existe, sim, uma importância de se apoiar a economia local de onde você, especificamente, vive, no entanto, o consumo local na moda pode ser um pouco mais abrangente do que isso.

A Diwo é uma marca mineira que leva isso ao pé da letra e apenas produz através de colaborações com outros produtores e designers. Marcella, estilista por trás da marca, aponta que existe uma dualidade entre como ela entende as marcas locais e o imaginário comum: “Vejo como locais as marcas que cresceram em uma determinada região e funcionam ativando os sistemas daquele círculo, atuando como um ecossistema que se fortalece. (Mas), no imaginário comum, o termo se associa muito à dimensão do negócio, catalogando como marcas locais apenas pequenas marcas, de trabalho mais autoral e menos industrializado.”

Por que, então, marcas locais?

Segundo Renata, “Trabalhar com mão de obra e matérias primas nacionais basicamente e estar inserida dentro do mercado onde produz seu produto.” é o que define uma marca local, “Pra nós, como pequena marca, desde o início produzimos com costureiras de bairro e não faz sentido pra gente trabalhar de outra forma. É gerar emprego, perceber que através da marca estamos contribuindo para que famílias se sustentem. É também sobre respeitar o tempo de produção das coisas, o que traz  mais valor ao que se consome, e não somente produzir e descartar.” continua.

Vejo como locais as marcas que cresceram em uma determinada região e funcionam ativando os sistemas daquele círculo, atuando como um ecossistema que se fortalece.

Marcella Mouli

Adaptações de conceitos exigem também adaptações de definição. Na moda, quando falamos de marcas locais, faz mais sentido pensar na lógica de produção dessas marcas.

Na indústria da moda e, principalmente, grandes marcas, é notório a terceirização e internacionalização do trabalho. Essas marcas terceirizam sua produção para fábricas ou empresas terceiras autogeridas, muitas vezes até enviando isso para outros países com leis trabalhistas mais flexíveis e mão-de-obra barata. Essa situação e falta de fiscalização decorrente da terceirização é o que resulta no que já conhecemos como trabalhos análogos à escravidão na moda.

“A mão de obra local é fundamental quando se fala em consumo consciente e slow fashion. É você poder saber quem produziu sua roupa, saber que pessoas receberam um salário justo pelo seu trabalho e principalmente que nenhuma pessoa sofreu abusos ou foi escravizada pra que aquela roupa vestisse você. ” Aponta Renata.

A transparência nos processos também é um fator importante para Marcella, que conta que “Quando atuamos a favor do que está ao nosso redor, de alguma forma, estamos dando a nossa contribuição para que uma empresa, ou pessoa, ou até mesmo coisa que a gente admira se desenvolva de forma independente. E, ao contrário do que é grande ou está longe, é possível enxergar com mais clareza os impactos da nossa ação e decidir se faz sentido continuar apoiando.”

Por isso, quando falamos de consumir moda local, estamos falando de marcas que produzem localmente. Ou seja, que estão próximas das suas costureiras, modelistas e da sua cadeia produtiva, o que possibilita uma maior transparência e fiscalização desses processos, para garantir que essa mão de obra seja bem remunerada e tenhas boas condições de trabalho. Dessa forma, quando compramos de marcas locais, estamos advogando por melhores condições de trabalho na cadeia produtiva. Por mais que seja ainda mais interessante comprar e incentivar marcas da sua cidade, você não precisa se limitar para apoiar marcas locais.

Além de fatores mais práticos e técnicos, existe, com frequência uma questão afetiva que permeia as relações das marcas locais. Marcella Mouli, criadora da Diwo Collab conta um pouco de sua experiência: “Além disso, existe um fator afetivo no processo. Como eu fui criada no chão de fábrica, a maioria de nossos parceiros. me conhecem pelo nome. Essa relação, de tomar um café no balcão com a pessoa que existe por trás do profissional, me faz compreender o sistema por uma perspectiva humanizada, que transcende a relação comercial movida apenas pelo dinheiro. E isso dá sentido ao que a gente faz.”.

Diwo Collab/Divulgação

É claro que ir contra um movimento ultracapitalista não vem sem seus desafios, Marcella explica: “Existem benefícios e desafios ao se escolher trabalhar favorecendo o que é nacional. É uma preferência nossa, justamente porque entendemos que é importante fortalecer uma cadeia da qual fazemos parte.”

Renata, da Santa e Nuvem complementa que: “O grande desafio que as marcas enfrentam em termos de produção local (falando em marcas maiores, já que as pequenas, em grande maioria optam hoje pela produção local) é a mão de obra rápida e muito barata vinda de fora, que não gera competitividade. É só colocar na balança e perceber o que pesa mais pra você e o que como marca você quer dizer e apoiar.”

“O bonito é que o consumo local nos desperta um olhar mais critico e afetivo que sim, pode muito bem ser utilizado para consumir globalmente.”

conclui Marcella Mouli
Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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