A (não)representação da pandemia na temporada de moda Verão 2021

Se a moda é o “reflexo do nosso tempo” e vivemos um dos tempos mais emblemáticos e marcantes dos últimos anos, décadas e talvez até séculos, é de se esperar que não faltem representações da pandemia na imagem de moda, certo? Não exatamente. 

As primeiras temporadas de moda digitais aconteceram de forma muito inesperada e conclusões acerca da pandemia representada na moda poderiam parecer precipitadas. Hoje, alguns meses depois, já vivemos um contexto mais estável em que entendemos e convivemos com a pandemia – principalmente se pensarmos em países que enfrentaram a primeira onda no início do ano.

Portanto, com a volta de desfiles físicos, em meio à flexibilizações e o iminente risco de uma segunda onda, muitos estavam ansiosos em ver como a moda navegaria e representaria um momento tão significativo na história da contemporaneidade. Grande parte desses se viram decepcionados. 

Com o fim da temporada de moda de Primavera Verão 2021, podemos dizer que já existe uma imagem de moda representativa do ano 2020 e interpretações ou fugas do tema do ano: a pandemia do COVID-19. Essas representações da pandemia na imagem de moda nessa temporada parece seguir alguns padrões ou grupos, que dissecamos nesse texto: 

As Máscaras

As máscaras são provavelmente o signo estético mais marcante de todo esse momento em que vivemos. Por mais que elas já existiam e faziam parte do dia a dia de alguns países, principalmente do Leste Asiático, foi com a pandemia do COVID-19 que elas se tornaram um signo comum a nível mundial. 

É, talvez, surpreendente, portanto, que a imagem de moda parece se recusar ferrenhamente a representar as máscaras em seus looks e produções. Em um total de mais de 200 desfiles pesquisados do circuito internacional de moda de primavera verão 2021 (New York, Milão, Paris e Londres), contabilizamos apenas 11 marcas que desfilaram ou fotografaram modelos com máscaras. Mais do que uma questão apenas conceitual, o não uso das máscaras também coloca em risco uma série de profissionais da indústria da moda, principalmente as modelos.

Existem uma série de motivos que podem ser especulados essa falta de representação das máscaras na imagem de moda – à medida que isso também se repete em grande parte dos editoriais de moda hoje. Com a significativa retração econômica do setor de moda no primeiro semestre deste ano, não representar o momento pandêmico pode ser uma tentativa de “deixar tudo isso para trás” e buscar uma recuperação econômica no segundo semestre e para 2021.  

Pode, também, ter a ver com a controversa criação de máscaras por grifes de moda. Vimos casos no Brasil de marcas brasileiras sendo fortemente criticadas por produzirem máscaras com preços altos e, em menor medida, a Burberry e a Louis Vuitton também não foram poupadas de críticas quando lançaram suas próprias versões de EPIs.

Através de máscaras ou não, a representação da pandemia também se deu de outras formas, e, até a não-representação direta também diz muito sobre como queremos lidar e processar tudo isso. 

Uma dose de Escapismo

Escapismo: quando nos deparamos com situações tão críticas e difíceis, que queremos apenas escapar, fugir, pensar em outras coisas, sem, necessariamente ter que lidar com aquela situação. Não cabe sentimento de culpa aqui, o escapismo é justamente sobre precisar escapar e não sentir culpa sobre isso, e tá tudo bem. 

Nenhuma novidade para o mundo da moda, das artes, ou do entretenimento, foi a forma que algumas marcas escolheram para representar o momento que vivemos: não lidando e buscando uma válvula de escape para uma realidade, ou mesmo, mundo menos caótico. 

Foto: Reprodução

Na Versace, um dos desfiles mais aclamados da marca nos últimos tempos, a cenografia nos levava para Versacepolis, uma espécie de alusão à submersa cidade de Atlantis. Com várias referências a Gianni Versace, os bordados de referências marítimas e os cabelos molhados transportam o espectador para uma outra realidade, aqui, bem literalmente traduzida em uma espécie de sociedade ou mundo submerso que, apesar de em ruínas, parece nunca ter sido abalado por uma pandemia. 

Na London Fashion Week, a Burberry, que fez seu primeiro desfile desde o início da pandemia, nos leva a terras rurais, no meio de uma floresta onde desfila sua coleção. Seja pelos modelos desfilados, pela trilha ou cenografia, todo o desfile tem uma áurea lúdica, quase que como uma floresta encantada e pacífica. Pandemia por aqui? Exceto pela ausência de plateia física, nem sinal. 

A Jacquemus, em julho, também realizou seu desfile fortemente ancorada no escapismo. O típico cottagecore da marca, mais uma vez, busca escapar para o campo, uma válvula de escape pessoal do estilista e também para diversas pessoas tanto em relação à pandemia, quanto ao êxodo urbanoo cada vez maior. 

Destaque importante também para a Schiaparelli, que em seu Verão 2021 aposta, não por coincidência, no surrealismo e na desconstrução de modelagens e da própria figura humana.  

Os Otimistas Radicais

Outra perspectiva que também apareceu bastante foi de um ultra-glam, em uma espécie de hedonismo que diz que o show deve continuar. Não apenas continuar, mas o show vai recomeçar, e de forma vibrante! É um otimismo para o que está por vir e que se traduz em cores vibrantes, roupas brilhosas e alto glamour. 

Na Balmain, um desfile em que Olivier Rousteing parece finalmente mudar alguns dos códigos de sucesso que levaram a marca ao auge do sucesso midiático. Se em tempos difíceis ostentar torna-se cafona, não para a Balmain, que traz brilhos, muito glamour e um último respiro de vida aos tons neon.   

No desfile da Isabel Marant, códigos que já estamos acostumados: mangas bufantes, volumes, brilhos e um ode aos anos 80 e ao disco anunciam o otimismo com que a marca vê a próxima temporada. O desfile também contou com uma performance de dança do coletivo (LA)HORDE, aumentando os níveis de otimismo e apostando na dança, que parece ser a fórmula de atingir a nova geração de TikTokers – ou, pelo menos, a forma que muitas marcas têm tentado fazê-lo. 

A moda pós-apocalíptica

Por outro lado, seja por coragem ou não, algumas marcas ousaram e se aventuraram em tentar representar o momento que vivemos em suas coleções.  Sempre hiperbolicamente, em vestes pós-apocalípticas e mundos distópicos, as poucas produções que optaram por esta representação nos rechearam de referências à pandemia. 

A Marine Serre, como uma marca que já tratava questões apocalípticas como a emergência climática e poluição desde sempre, não fez muitos rodeios ao tratar da situação em que vivemos hoje. Em alguns momentos, chamada até de visionária por ter desfilado dezenas de máscaras no ano passado, seria até surpreendente se, nesse momento, a designer fugisse da discussão. 

Em ‘AMOR FATI’, uma das produções surpreendentes e cativantes de todas as temporadas de moda online, arrisco dizer, Marine Serre trata de uma sociedade pós-apocalíptica. No fashion-film, que conta com a presença da multiartista Sevdaliza, máscaras e face-shields conversam perfeitamente com a estética das roupas. Também não falta a ideia de que, nesse mundo destruído pela ação humana, eventualmente teremos que nos submergir e criar sociedades embaixo d’água para seguir habitando o planeta.

Uma das outras poucas marcas que buscaram representar a pandemia de forma mais direta em suas coleções foi Rick Owens. Também, uma marca da qual já se era esperado que não se ausentasse dessa pauta. A coleção, batizada de “Phlegethon”, um dos rios da obra literária Divina Comédia ao que o estilista comenta que não é exatamente o centro do inferno, mas no caminho para ele. 

A perspectiva mundial é caótica, sejam crises sanitárias, políticas ou financeiras, e Rick Owens adota e relaciona essa perspectiva com o Inferno da Dante. Em sua paleta de cores, com brancos, vermelhos e mais rosa, a coleção parece mais alegre que os últimos trabalhos do estilista, mas em seus formatos, cortes, modelagens e as próprias máscaras, é inevitável o resgate do referencial imagético de mundo pós-apocalíptico que temos. 

A temporada de moda de primavera verão 2021 se encerra sobre representações e não representações do momento de mundo em que vivemos. Se decepcionar com as raras representações imagéticas e conceituais da pandemia é compreensível, mas talvez devemos também repensar nossas expectativas e pensamentos. 

A moda pode ainda ser um reflexo do nosso tempo sem ser um espelho completamente verossímil dele. Até as coleções mais escapistas e otimistas também dizem muito de nosso tempo e da pandemia. Afinal, se estivesse tudo bem, quem é que gostaria de escapar?

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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