Temporadas de moda: ainda precisamos de tudo isso?

Foto de capa: SUNNEI

A sazonalidade é um assunto bastante frequente na moda e no qual a produção de moda é bastante pautada. Já falamos sobre isso aqui por algumas vezes, mas nunca em um papo direto e reto sobre a sazonalidade da indústria da moda. Pois bem, chegou esse momento.

A moda surge, a princípio de tudo, como um instrumento de desenvolvimento econômico para a França e um aspecto de diferenciação social entre nobreza e plebe. Nesse momento, ela ainda era feita sob-demanda, através de alfaiates e costureiras e pouco$ poderiam pagar. 

É só mais tarde, com o surgimento do conceito de Alta-Costura e da primeira Maison, em 1858, pelo francês Charles-Frédéric Worth, que surge o conceito de coleções criadas de acordo com as estações do ano. Na virada do século a produção de moda e o trabalho dos alfaiates e costureiras ganham força e é em 1943 que surge a primeira semana de moda: a NYFW, como uma resposta dos estudante que não poderiam ir à Paris devido à Segunda Guerra Mundial – uó não poder viajar pra fazer pesquisa de moda porque tá rolando uma guerra né? 

Algum tempo depois, o surgimento do Prêt-à-Porter/Ready-To-Wear (Pronto-pra-vestir), em 1959, a “democratização” da moda e o aumento dos consumidores de moda reforçam ainda mais a sazonalidade da indústria e a moda pautada em temporadas. 

Corta a cena para o século XXI, em um mundo extremamente globalizado, com marcas produzindo de 6 a 8 coleções anuais ainda pautadas em estações e temporadas e por isso refletimos: isso ainda faz sentido? Se é que algum dia já fez? Explicamos…

Créditos: Asai/Instagram

Primeiro, é importante apontar que o conceito de roupas por estações só pode ser funcional no hemisfério norte com estações bem definidas. O Sul Global não experiencia as estações tão bem definidas e, no Brasil, nem se fala, né?

Ainda que falemos de marcas do Norte Global, o conceito ainda parece perder o sentido, à medida que falamos de um cenário de consumo de moda a nível global e não local – e nem vale dizer que isso é muito novo. Se esse consumo é espalhado geograficamente pelo globo, faz sentido ainda pautar a criação e produção de moda em estações, que são, geograficamente dependentes?

10 países dominam 69% do consumo mundial de varejo na moda, encabeçado pela China, EUA e Índia. No que tange ao luxo, estima-se que até 2024 a China será responsável por quase 40% desse consumo de moda e a Europa represente apenas 15%, segundo report do eMarketer.com.

Quando falamos de moda produzida no Sul Global, isso faz ainda menos sentido e é até válido perguntar: por que esse conceito foi adotado em primeiro lugar? Com estações pouco definidas, o Primavera-Verão e o Outono-Inverno se tornam guias pouco representativos das estações, e conceitos colonialistas quase que unicamente comerciais, de fato. 

Olhar para o  nosso país e produzir para o Brasil e os brasileiros é imprescindível. No BRASIL, a sazonalidade cria uma demanda pouco existente por peças de inverno ao passo que ignora uma demanda real e existente de peças de “verão” durante o ano todo e nos força a uma lógica colonialista pouco funcional. 

Créditos: DENDEZEIRO/Instagram

Ao nos acostumar com novidades o tempo inteiro, esse modelo de produção, também vai se cansando enquanto fórmula e apresentando sinais de desgaste: a lógica ultracapitalista de excesso de peças e coleções também atropela a criatividade de estilistas e criadores de moda, que já apresentam seu descontentamento com o modelo. 

Esse impacto cai principalmente sobre criativos e estilistas locais e independentes, que não conseguem – nem querem – acompanhar uma lógica desenfreada de produção e esgotamento da criatividade, principalmente aqueles com equipes reduzidas e cujo grande valor é pautado na criatividade em si, como as marcas autorais. 

Se tudo isso parece não fazer mais tanto sentido, não é só você que acha isso. A pandemia – e todas as suas decorrências – escancaram várias dessas incongruências. A inexistência das semanas de moda físicas, apesar das inúmeras tentativas de manter sua relevância, afasta cada vez mais marcas desse modelo e da sazonalidade desses eventos. 

A NYFW respira por aparelhos e já nem se chama mais Fashion Week, agora se chama American Collections Calendar – adicionaria um Norte Americano aqui – e é basicamente um compilado de coleções apresentadas em todo território nacional estadunidense. 

Grandes nomes saíram do calendário dos grandes circuitos de moda no ano passado e, mais marcas se somam a esse prejuízo. Com isso, reforçando o lugar dessas marcas enquanto suas próprias plataformas de mídia, um movimento cada vez mais perceptível globalmente. Caso queira conferir especificamente quais marcas permanecem ou saem dos principais circuitos de moda, confira aqui. 

Se não há uma presença física e a comunicação é feita toda através das redes sociais, faz sentido para marcas que têm mais seguidores e visibilidade que as próprias semanas de moda participarem dessas? Quando elas podem ser suas próprias plataformas de mídia e fomentadoras de suas comunidades, como o GucciFest, por exemplo??

Então, possivelmente, o papel das semanas de moda pode ser deixar de ser olhar para as grandes marcas e passar a atuar como uma plataforma para alavancar novos talentos. No entanto, como isso é possível, considerando que essas novas marcas não conseguem e não querem competir na lógica desenfreada das temporadas de moda?

A conta não fecha, e o sistema sazonal das temporadas de moda se desgasta cada vez mais. Enquanto algumas semanas de moda já buscam se reinventar, outras arriscam cair no ostracismo. 

Será um dos legados do momento que vivemos o esgotamento do modelo de sazonalidade da indústria da moda; ou novos movimentos de aceleração da produção serão criados para sustentar um mercado baseado no consumo desenfreado?

Créditos: Mowalola/Instagram
Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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