Masculinidade, Virilidade e Hipersexualização: a nem-tão-nova representação do homem moderno

Temos visto cada vez mais um movimento de hiperssexualização e valorização da masculinidade e virilidade. Como atrair olhares e gerar desejos para novos produtos? Que tal a “boa” e velha masculinidade viril? 

É o velho SEX SELLS, com novo perfume (e suor). Por um lado, esse movimento é particularmente interessante quando utiliza da virilidade como lógica de subversão da própria masculinidade, mas por outro, também pode ser problemático. 

Vetements | Reprodução Instagram

Para entender melhor a diferença entre esse novo movimento e a representação sexual da virilidade que já conhecemos, iniciamos dando um giro na história da representação masculina na imagem (de moda). Historicamente, a representação masculina passou por diversos momentos: nos anos 1960, começamos a ver uma disrupção dos códigos de gênero e da masculinidade, com homens utilizando de estéticas mais femininas, croppeds, shorts curtos e cabelos longos, por exemplo.  

Logo depois, um visual butch, mais viril começa a dominar, mesmo entre os núcleos LGBTQIA+ e até mesmo entre as mulheres, como parte de um movimento político-social – que se aproxima do que revivemos hoje. Já nos anos 80, surge uma necessidade dos homens heterossexuais, de se diferenciarem dos homossexuais, devido ao preconceito com a comunidade LGBTQIA+ trazido pela desinformação quanto ao vírus do HIV. Um movimento que torna a reforçar os estereótipos de uma hipermasculinidade. 

Dentre essas diferentes representações, na moda, o arquétipo do Adonis foi muito presente: um homem forte, másculo, determinado, bem sucedido e, claro, viril. Pense em VERSACE, em publicidades ultrassexuais de perfumes dos anos 90 e início dos anos 2000. Nesse momento, o homem não aparece como objeto de desejo, mas como um ser elevado, superior e no âmbito do aspiracional. 

Outra representação que vale destaque aqui é a dos Yuppies (Young Urban Professional), o estereótipo do jovem entre 20 e 40 anos, bem sucedido, que ganha ascensão social nos grandes centros urbanos e gasta seu dinheiro com artigos de luxo, moda e opulência. Essa representação, em alguns momentos, se cruza com o imaginário popular do “metrossexual”, criado nos anos 2000. 

Nesse novo momento, o homem é hiperssexualizado e aparece como objeto de desejo, bem como sua virilidade e sexualidade. A virilidade masculina e a hiperssexualização aparecem como atrativos, estratégias comerciais e até de vendas de uma série de produtos. Homens extremamente sarados, portando nada além de um acessório, colar, brinco ou óculos, por exemplo. 

É como um novo Adônis, não apenas idealizado, mas também objetificado e hiperssexualizado, ao mesmo tempo, que, em seu porte atlético, abdômen trincado e trajando o mais alto luxo, trazem uma releitura da imagem do Yuppie. 

Quase que da mesma maneira que as mulheres eram objetificadas na imagem de moda, sob a ótica do machismo, por vezes comparadas com uma bolsa ou frasco de perfume. Isso pode se dar por uma série de motivos: desde o aumento da representatividade de editores e profissionais de moda homossexuais, reproduzindo a lógica estética com a qual foram educados sobre corpos masculinos, até uma simples reprodução da lógica da objetificação de corpos aplicada sobre a masculinidade. O culto à vida, numa lógica hedonista, que, necessariamente, passa pelo sexo, também é um fator mais forte desse movimento.

É importante pontuar, no entanto, que a simetria entre a objetificação masculina e a objetificação feminina não é equivalente enquanto opressões sociais sobre o homem – branco e cisgênero, principalmente. A mulher sofre da opressão sistêmica do machismo e da misoginia, o que torna essa objetificação sexual extremamente problemática e prejudicial. O homem (branco e cisgênero), por outro lado, não é sistematicamente objetificado pelo sistema como a mulher ou o homem negro – frequentemente hiperssexualizado, principalmente na comunidade gay. 

Como qualquer idealização, existe uma problemática nesse processo que reforça padrões estéticos e de sucesso, criando estereótipos e imagens que são reproduzidos amplamente.  Toda objetificação despe o indivíduo de sua personalidade, de suas particularidades, para se tornar nada mais que um objeto sexual de admiração, usurpado de suas vontades.

Além disso, sabemos que existe um “tipo certo” de corpo que é hiperssexualizado, que é visto como atrativo e viril, nesses aspectos: o corpo malhado, padrão, preferencialmente branco e, acima de tudo, magro.  Corpos gordos não costumam parecer retratados como sexuais – ou sensuais -, fonte de virilidade e atrativos tanto quanto os corpos magros e malhados. Ainda, os corpos negros, quando aparecem nessa posição, são ainda mais objetificados e hiperssexualizados, como corpos dignos da atração sexual, mas não de afeto.

A virilidade masculina pode, sim, ser explorada sem ser problemática, principalmente como forma de desconstrução e reflexão sobre a própria masculinidade. A sexualização também pode servir como artifício para cruzar as linhas entre masculino e feminino de modo a contribuir para uma moda mais diversa, que se dissocia da masculinidade tóxica. 

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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