Roupas agênero não deveriam ser sem graça

Por que quase sempre vemos lançamentos e propostas de roupas agênero (ou genderless), com uma série de túnicas, blusões, peças que não mostram o contorno do corpo e ainda, em tonalidades cruas de cinzas, brancos e nudes? 

Bom, isso talvez aconteça porque a própria proposta de criar uma linha de roupas agênero parte do pressuposto de um referencial de gênero. A existência de roupas genderless parte da ideia de uma linha masculina e uma linha feminina bem definidas e, de alguma forma, uma terceira linha, sem muita definição, conceito ou ideia. O resultado disso são as roupas disformes e desinteressantes que frequentemente vemos como taxadas de genderless

Roupas sem gênero ou para todos os gêneros, é menos sobre peças e mais sobre a mensagem que é passada e que construímos sobre as roupas, enquanto sociedade. 

Por exemplo, mais simples do que desenvolver toda uma linha de roupas cruas e sem formatos, é uma diversidade de modelos e corpos vestindo as mais diversas modelagens (sejam elas tradicionalmente masculinas ou femininas) 

Quando surgem as diferenças de roupas por gênero?

As definições de gênero na moda não são exatamente recentes, por mais que às vezes escutamos que sim. O momento em que a moda começou a ser separada por gênero não é exatamente claro. Mas, historicamente, a indumentária sempre cumpriu o papel de criar separações sociais e emitir significados: de posições sociais, religião e, inclusive, gênero. 

Ainda na Europa Pré-Medieval, as roupas começam a ter diferenças mais claras entre homens e mulheres, com homens usando calças e calções. Mais tarde, na Idade Média, com a religião e a ideia do pecado ligado à mulher, surge a ideia misógina de se esconder o corpo feminino através das roupas. Essas duas predefinições  podem ser entendidas como um possível início da separação de gênero como a conhecemos na moda hoje. O desdobrar disso na pós-idade média e modernidade até os dias de hoje é papo para outro dia. 

Apesar das separações de indumentária por gênero não serem novas, o entendimento de qual peça é designada para qual gênero é bem mais recente. 

Ainda, quando tiramos nosso olhar da história eurocêntrica e cristã, em outras culturas, percebemos que as definições de gênero como as conhecemos (e até a quantidade de gêneros) é um aspecto trazido e forçado pelo colonialismo. 

O masculino e feminino, hoje.

É claro que existem modelagens masculinas e femininas, que buscam criar padronagens de roupas adaptadas aos corpos biológicos femininos e/ou masculinos. Daí tiram-se largura de busto ou comprimentos de cós de calças, por exemplo. 

Isso é uma herança do surgimento do Prêt-à-Porter (roupas prontas para vestir), quando as roupas deixam de ser feitas sob medida e começam a ocupar as araras das lojas de departamento. 

Para isso, foi preciso a criação de padronagens de tamanhos e modelagens, que sejam adaptáveis a diferentes pessoas, os tais P, M, G e as diferenças entre modelagens femininas e masculinas.

Bem como para a criação de roupas “plus-size”, esse movimento de criar roupas agênero não costuma ser pensado a fundo, para além de uma fachada. A partir do momento que lidamos com uma diversidade de corpos que não tange apenas a binariedade, essas padronagens não precisam seguir os mesmos critérios tradicionais.

Dessa forma, faz muito mais sentido trabalhar uma comunicação plural, de uma forma a pensar que as roupas não tem gênero determinado, do que pensar em criar linhas genderless. 

Efetivamente trabalhar para desconstruir o conceito de gênero das roupas, pode começar com uma simples divisão de categorias num site ou em uma loja, por exemplo. Afinal, não cabe a ninguém estabelecer gêneros às roupas, à medida que a moda, como a entendemos hoje, adquire sentido a partir da apropriação e interpretação das roupas pelos indivíduos.

Créditos: Another Place
Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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