Remixagem de Moda: Cultura do D.I.Y, cópia e autenticidade

Customização, Bootleg, D.I.Y, rework, remix, upcycling são algumas das diferentes técnicas de remixagem, reapropriação ou hackeamento de roupas. Em suas diversas particularidades (cada técnica se refere a um processo ou fim específico), essas técnicas dizem respeito à reapropriação de uma peça de roupa – vestuário, calçado, acessório – e à dar, de alguma forma, uma nova vida a esse item. 

Desde o ano passado, a pandemia e o isolamento social foram grandes motores para o boom dessas técnicas, feitas de forma artesanal e que tem o TikTok como terreno fértil para veiculação e viralização. Segundo o relatório Youth Culture 2021 do WGSN, uma nova geração de jovens artistas focados nas técnicas manuais e artesanais têm surgido, à medida que os hobbies de quarentena se tornam lifestyles, profissões e até negócios. Esse mesmo relatório diz que a busca por “máquina de costura” no Google cresceram em até 400% nos EUA e a venda em até 127% em Abril de 2020. 

Entre o DIY do cardigan da JW Anderson de Harry Styles, aprender tricot em casa, customizar peças, costurar tapetes (a hashtag #rugtiktok já tem mais de 202 milhões de views) a criar aneis de biscuit até agora andamos um bom caminho; e essas práticas artesanais aprendidas em casa, sob motivação do isolamento social, também foram responsáveis inclusive pelo surgimento de alguns pequenos negócios e novas marcas.

Foto: Brocki Brocki (@brockibrocki)

Quando o papo é sustentabilidade, essas práticas são importantes no que diz respeito a hackear o sistema de moda, à medida que utilizam peças garimpadas ou já ‘encostadas’ em sua maioria e dão nova vida a roupas que se tornariam resíduo. Assim, reduzindo o consumo direto e produção de novas peças – principalmente de grandes corporações – e, consequentemente, as emissões e resíduos em meio a esses processos artesanais. É importante pontuar, ainda, que esses processos são praticados em sua maioria pelos próprios consumidores, para si mesmos, ou por pequenas marcas e criadores que produzem em pequena escala a partir de material garimpado. 

Enquanto esses processos tentam hackear o sistema, não demorou para que grandes marcas fizessem o inverso e hackeassem o próprio ativismo. O mais recente, é o caso da Balenciaga, por exemplo, que cria a bolsa “Sneakerhead” inspirada justamente na estética do upcycling e do rework, simulando um acessório feito a partir de tênis reciclados – semelhante ao trabalho de uma série de pequenos criadores. A maior problemática, no entanto, se encontra no fato da marca criar um produto inteiramente novo que não foi feito de material reciclado, mas se apropria e esvazia a proposta do upcycling e do rework, se tornando apenas uma “estética” ou tendência (no pior sentido da palavra). 

Ainda, poderia essa cultura do faça-você-mesmo/DIY contribuir para o roubar e cópia de designs de criadores de moda? Existe uma problemática de originalidade na pauta da remixagem de roupas?

Historicamente, as diversas técnicas de remixagem de moda sempre levantaram à tona questões sobre autenticidade. Por um lado, o desejo por peças essencialmente originais e únicas são grandes motivadores para o consumo de marcas de upcycling e customização de peças através do DIY, além de explicar o grande sucesso da rede social DePop – lá fora – entre as novas gerações, bem como o terreno fértil que se tornou o TikTok para essas criações. Por outro lado, as práticas de bootleg e remix, de Dapper Dan ao cardigan de Harry Styles, dividem opiniões no que diz respeito à autenticidade, cópia e design e encontram pouco respaldo legal sobre originalidade. 

Para te situar, Dapper Dan, é um estilista norteamericano, do Harlem, que ficou conhecido nos anos 80 e 90 por criar bootlegs? remixes? ‘falsificações’? de grandes grifes de luxo, com seu próprio tipo de design e estética, que conquistou uma legião de fãs na NY da época. A princípio, a relação tensa com as grifes e a “alta-moda” era tortuosa e chegou às vias legais, com um processo da Gucci; anos depois, a mesma Gucci o convidaria para assinar uma coleção cápsula da marca. 

No caso de Harry Styles, JW Anderson e o cardigã que viralizou, após produtos esgotados e centenas de tutoriais de DIY sobre como fazer seu próprio cardigã-do-Harry-Styles, a própria marca liberou materiais e modelagens para que os consumidores pudessem fazer seu próprio produto. 

Nesses dois casos é seguro afirmar que esses remixes (ou como quiser chamá-los) foram responsáveis por aumentar o desejo, das pessoas sobre essas marcas e produtos, sem prejudicá-las. Pense bem, quem escolhe fazer um DIY ou um remix de um produto de luxo provavelmente não seria um consumidor desta marca de qualquer forma, independente dos inúmeros tutoriais na internet. 

Essas práticas permitem que, de alguma forma, pessoas com menor poder aquisitivo possam consumir de certas marcas sem, efetivamente, comprar delas: enquanto, tradicionalmente, isso pode ser interpretado como falsificação ou perda de valor, por outro lado, também pode significar o aumento do desejo sobre uma marca. 

A questão, no entanto, se torna um pouco mais complicada quando falamos de pequenos criadores. Nessa matéria do 1GRANARY, um estudo de quatro casos – incluindo o de Harry Styles e da JW Anderson – ajuda a refletir sobre o assunto, bem como essa matéria da Dazed, ainda de 2016, que reflete se existe algum tipo de falsificação ou cópia que não seja, necessariamente, prejudicial.

Sob essa ótica, sim, um tutorial de DIY viral pode significar a perda de receita e autenticidade para uma marca pequena que realiza processos artesanais, por exemplo. Nesse caso, o grande diferencial é o design que uma marca ou criador tem a oferecer, já que seus processos podem ser replicados – a não ser que se tratem de produtos únicos/garimpados, a máxima é que a técnica pode ser replicada na maioria das vezes. 

Mas, a partir do momento em que o DIY se propõe a replicar também os designs de pequenos criadores, sem consideração pela autoria, através de tutoriais amplamente reproduzidos, pode-se existir um problema quanto à cópia e autenticidade dentro da comunidade do faça-você-mesmo. 

Enquanto as práticas artesanais e manuais são interessantes em vários âmbitos: da D.I.Y se propõe a copiar um produto ou técnica muito específica apenas para não consumir, em proveito próprio. Isto é, quando falamos de pequenos e médios criadores autorais, a simetria não é válida para grandes marcas, especialmente, de luxo. 

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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