A volta do Emo e do Pop-Punk: Música, moda e saúde mental

Conteúdo foi co-criado entre o SdC e a Semibreve, newsletter musical de Dora Guerra em uma colaboração que carinhosamente apelidamos de ✨santobreve✨ e que deve aparecer mais vezes por aqui.

Goste ou não, o EMO está de volta. Entre e-boys, e-girls e gen Z, em algum momento o emo tomou conta da cultura pop de novo, e o TikTok se tornou o novo Tumblr – eterno antro das culturas alternativas da primeira década dos anos 2000. 

Franja no olho, roupas listradas, cabelo colorido e bagunçado e uma mistura de revolta e tristeza: eu estou descrevendo os Emos, mas poderia muito bem ser sobre e-boys (nome para electronic boys: fãs de trap, TikTok e anime, segundo a própria Internet). O emo, essa subcultura que teve seu auge comercial por volta dos anos 2010 e encontrou refúgio em redes sociais feito o MySpace ou o Tumblr, provém do gênero musical emo ou emocore, surgido no final da década de 1980 e que bebe das fontes do pop, punk-rock e post-hardcore. 

Yungblud, Machine Gun Kelly e Travis Barker | Reprodução

As músicas emotivas, guitarras pontuadas, toques de grito e letras tristes e revoltadas eram o que uniam esse grupo em torno de uma sensação de solidão, raiva, frustração e de ser incompreendido pelo mundo – basicamente como todo adolescente se sente em algum momento da vida. Não era um movimento exatamente original nesse sentido: o próprio punk e o pós-punk já tinham esse caráter raivoso e explosivo. Apesar disso, o emo trazia uma nova introspecção, menos política ou anticapitalista do que artistas do punk, por exemplo.

A estética dos e-boys/girls e de parte dessa nova geração, que, por sua vez, encontra refúgio no Tiktok, em fuga do cringe do Instagram, já bebe bastante da fonte do emo e da cultura skater, com toques de referências gamers e de animes/mangás. O bedroom pop, pop “sussurrado” e o neo-rock também começam a resgatar a estética visual e sonora do emo e do pop-rock do início dos anos 2000 – com a reintrodução das guitarras roqueiras, elementos mais ausentes na música do fim dos anos 2010. Como exemplo desses gêneros, tome BENÉE, Billie Eilish e YUNGBLUD, respectivamente, figuras que não pareceriam fora de lugar na cena emo do Tumblr em 2008. 

Nos últimos tempos, essas similaridades deixaram de ser pequenas e passaram a ser cada vez mais explícitas, como um tributo de jovens que enxergam na estética emo do fim dos anos 2000 um momento a ser revisitado por completo. É o caso da WILLOW e outros artistas jovens – que eram pré adolescentes no auge da era emo -, que chutaram o balde, trazendo de volta a estética e a sonoridade do pop punk com toques de emo com força total, inclusive, no caso da WILLOW, com produção de Travis Barker, baterista do Blink 182.

Quando analisamos essas letras, em comparação com as letras das bandas de emo, percebemos que a familiaridade não é somente sonora ou estética. Esses jovens cantam sobre saúde mental, ansiedade, depressão, suas revoltas, inseguranças e medo do futuro – pois é, da mesma forma que os emos se sentiam. Isso não é exatamente uma coincidência, os jovens de hoje tem mais problemas de saúde mental do que nunca (ou pelo menos fala-se mais sobre isso). Segundo pesquisa da Western Governorns University, apenas 45% dos Genzers consideram sua saúde mental boa ou ótima, 11% a menos que os millenials. Além disso, mais de 70% dos adultos de 18-23 reportaram quadros depressivos, de ansiedade ou depressão durante a penademia (CNBC).

O emo se relaciona com essa crescente sensação de impotência: ainda que seja mais barulhento que músicas melancólicas de artistas folk, por exemplo, ainda é um gênero musical que compreende a realidade como algo triste e complexo, difícil de mudar; por vezes, é escapista e metafórico, criando uma forma gótica de representar o mundo em que vivemos. Além disso, foi com os videoclipes de bandas emo como Panic! At The Disco e My Chemical Romance que muitos jovens viram novas expressões de gênero, com homens maquiados e menos preocupados em performar masculinidade que os roqueiros tradicionais – logo, revisitar o emo significa poder trazer novamente essa estética e explorá-la mais profundamente, uma vez que essa geração explora as diferentes possibilidades de expressão de gênero e não-binariedade com muito mais naturalidade que as gerações anteriores, que originaram movimentos como o emo e o punk. Afinal, é uma alternativa visual e sonora ainda mais marcante que o pop.

Para além de moda cíclica e nostalgia, se EMO é sobre sentir emoções negativas intensamente – tristeza, raiva e afins –, faz muito sentido que esteja de volta, mais forte do que nunca. 

Santo de Casa

O Santo de Casa é um portal independente que busca democratizar e desconstruir as narrativas da moda. Produzimos conteúdo sobre moda independente, arte, cultura e design! Além de uma cobertura mara sobre tudo o que rola na cena de Moda Local de Beagá, de onde somos!

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