Adeus It-Girls, olá pessoas: a nova era das modelos

Entre modelos cada vez mais diversas em tamanho, idade e raça, voz e posicionamentos políticos, estamos presenciando o fim das modelos It-Girls? Tantas garotas que cresceram na indústria sob essa premissa: normalmente modelos extremamente dentro do padrão, que abarrotavam as páginas de streetstyle diariamente com seus looks para tomar um frappuccino ou ir malhar, parecem diariamente perder sua relevância. 

Bella Hadid poderia ser um exemplo disso, mas foi contra a maré. Ela se encontrou no meio de um campo de guerra nas últimas semanas, quando se posicionou Pró-Palestina em relação ao conflito (massacre) que se desenrolava entre o país e Israel. A modelo foi duramente criticada e rumores de que ela perderia seu contrato com a Dior surgiram (o que eventualmente não se concretizou). Com sua manifestação, Bella também chamou a atenção das mídias digitais do governo israelense, que a responderam, em uma clara demonstração da potência do posicionamento de uma celebridade sobre situações de injustiça.

Cada vez mais, vemos personalidades com personalidade se tornando embaixadoras, rostos e vozes de marcas, obrigando que as próprias agências se adequem ao novo modelo: que não tem tamanho, medida, idade, raça ou altura certa, precisa apenas cativar o público. Quantos casos não vimos nos últimos meses ou anos de pessoas que se tornaram famosas ao agradar o público e logo em seguida se tornaram agenciadas, mesmo que fossem indivíduos tipicamente fora do padrão estético vigente? 

O padrão inalcançável de magreza e “beleza”, que antigamente cativava (ou criava uma relação tóxica de dependência) não parece mais fazer sentido. Hoje o que atrai e o que define as “modelos da nova geração” são outros fatores. A realidade é que não queremos mais It-Girls, o público geral da moda não está mais interessado em legiões de garotas de tamanho 36 que reproduzem os mesmos padrões de beleza que os oprimem: ter desejos inalcançáveis não é mais fashionable. Por isso, queremos pessoas reais, com corpos reais, posicionamentos reais e personalidade: não queremos It-Girls, mas It-Porta-Vozes, It-Ativistas, são essas pessoas por quem queremos ser inspirados, que queremos que nossas marcas preferidas escolham.

As modelos, que antes eram símbolos aspiracionais de exclusividade, do que é inalcançável, começam a se tornar reflexo do mundo e pessoas que podem gerar identificação com o público e assim cativá-lo. É menos sobre querer ser e mais sobre se identificar. Afinal, faz sentido: é muito mais interessante ver uma peça de roupa em alguém com quem você se identifica, do que em um padrão estético que você sabe que mesmo se consumir, não vai ficar “tão bonito em você”. 

Palomija, Aaron Phillip, Precious Lee, Letticia Muniz, Rita Carreira, Rosa Saito, são apenas alguns dos exemplos dessa nova geração de modelos que tem trilhado um novo caminho na indústria da moda, que por certo, não vem sem sua parcela de dificuldades e preconceitos. 

A era de modelos exclusivamente dentro do padrão, sem posicionamento, cujo único trabalho era “ser bonita” (o que quer que isso seja), acabou, as pessoas não estão mais interessadas nisso. Uma prova do início desse movimento foi a derrocada da Victoria’s Secret, o epítoma das It-Girls e do reforço de padrões estéticos, que aconteceu não coincidentemente em oposição à ascensão meteórica da Savage X Fenty. A marca de lingerie de Rihanna é sobre pessoas, não padrões. 

Esse novo movimento, além de acompanhar as mudanças sociais e dos padrões de beleza, também pode ser associado às mídias sociais e a era pós-influencer em que nos encontramos. A facilidade de se tirar uma foto com um dispositivo que todo mundo carrega o tempo todo e publicar isso por conta própria faz com que todo mundo se sinta, de alguma forma, um modelo. Ao mesmo tempo que grande parte desses “modelos de Instagram” se tornam influencers, perde-se o interesse por influenciadores vazios, omissos ou os “isentões”, o que nos leva ao panorama que apresentamos aqui. 

Não é exatamente uma batalha entre pessoas “normais” e modelos. O padrão estético contra o qual todos somos comparados ainda é a norma e ainda domina os ensaios fotográficos e passarelas, bem como a profissão de modelo é indispensável para a indústria da moda. 

Mas essa nova geração e movimento onde predomina a ideia de que “todos podemos ser modelos” é, na verdade, uma relação que se retroalimenta. Não é que todos possamos ser modelos e portanto, não exista mais essa profissão, mas sim, que à medida que pessoas “normais” ocupam esses espaços, essas pessoas também se tornam modelos e a definição de quem pode ou não ser um modelo se torna cada vez mais subjetiva, sem desprofissionalizar o trabalho. 

Se tamanhos e medidas não determinam quem é uma modelo. Quem pode ser uma modelo? É uma questão bastante subjetiva, mas não é essa a beleza disso tudo? 

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s