Fast-Fashion vai produzir coleções em menos de 24 horas, o que isso quer dizer?

À medida que o fast-fashion vai se desgastando em detrimento de novos modelos de negócio e uma maior consciência social, novos desdobramentos e tentativas de se manter relevantes surgem. De coleções supostamente sustentáveis a coleções inteiramente criadas em 24 horas. 

A C&A anunciou que vai produzir pequenas coleções em menos de 24 horas, para serem criadas e consumidas no calor do momento, em uma estratégia que busca aumentar as vendas online e o mercado digital. Para isso, a marca tem uma equipe de aproximadamente 120 profissionais, entre designers e coolhunters, para desenvolver e disponibilizar um novo produto em 24 horas – incluindo a produção da peça piloto e fotografia com modelos. As entregas destas peças devem ser feitas em no máximo 15 dias e serão produzidas 100 unidades de cada uma.  

A gigante do fast-fashion já buscava reduzir o tempo de produção de uma coleção e havia criado a meta de 45 dias, posteriormente diminuída para 1 mês e então para coleções criadas e desenvolvidas em 15 dias. O modelo busca atingir o público que compra majoritariamente no digital e quer peças com as últimas tendências imediatamente, a preço baixo, um modelo de negócios similar a marcas como a Shein. 

Foto: SHEIN | Reprodução

O Fast-Fashion não está próximo de acabar – e essa questão é mais complicada do que você imagina – mas existe, sim, uma tomada de consciência maior por parte da população geral. Segundo uma pesquisa da Samsung (realizada no Reino Unido): 60% dos jovens estão dispostos a largar de vez o fast-fashion; 40% das pessoas perceberam que só usam uma pequena parte de suas roupas. Por outro lado, 30% das pessoas comenta que não saberia por onde começar a consumir de forma ‘sustentável’ e 41% dos entrevistados ainda afirma que prefere ‘estar na moda’ do que ser sustentável. Bom, o que isso quer dizer?

Por um lado, produzir coleções em menos tempo e com unidades limitadas pode parecer positivo para a redução do estoque morto (que recebe descontos até se tornar lixo ou mesmo ser queimado) e coleções mais “assertivas”. Mas por outro, essa lógica retroalimenta um modo de consumo ultra-capitalista baseado no uso e descarte de produtos duráveis como se fossem descartáveis, a lógica das tendências de moda (que também contribui para isso), e um modelo de trabalho que arrisca a diminuição da qualidade do produto (o que eventualmente, gera mais resíduos) e a precarização do trabalho, seja dos estilistas ou das costureiras. 

Parte dos consumidores afirma querer consumir de forma mais sustentável, mas não sabe como, e iniciativas como essa também não ajudam ou educam essas pessoas em como fazê-lo. Além disso, se no ano passado vimos estilistas do mundo todo se unindo para propor um novo calendário de moda, menos voraz e com mais abertura para o desenvolvimento de coleções de acordo com a criatividade e viabilidade, produzir coleções em menos de 24 horas vai completamente contra isso e aceno para um modelo de negócios pautado na cópia e no plágio.

Como já falamos por aqui (IGTV), simplesmente parar de consumir de Fast-Fashion ou extingui-lo, por mais tentador que seja, também não é a resolução dos problemas da indústria. O problema é mais profundo e precisa de acordos na moda, assistência governamental e subsídio para os trabalhadores do ramo. 

No entanto, uma das maneiras com que o problema poderia ser minimizado é com iniciativas reais e ativas de marcas de Fast-Fashion para conscientização e diminuição do ritmo de consumo, além de produção de peças mais sustentáveis. Mas isso não parece estar próximo da agenda das gigantes do mercado, afinal, independente do tecido utilizado, não dá para ser sustentável em um modelo de negócios baseado no consumo exacerbado e descarte.

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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