Como criativos brasileiros tem se reapropriado dos símbolos nacionais

Conteúdo foi co-criado entre o SdC e a Semibreve, newsletter musical de Dora Guerra em uma colaboração que carinhosamente apelidamos de santobreve e que deve aparecer mais vezes por aqui.

Desde que as cores verde e amarelo, a bandeira nacional e a camisa da seleção brasileira foram sequestradas por grupos de direita no Brasil, esses signos começaram a causar alguma repulsa ou afastamento de pessoas de esquerda e da classe artística. No entanto, de um tempo para cá, em busca de reaver o Brasil para o seu povo em uma situação política tão caótica, criativos de diversas áreas têm buscado se reapropriar e reinterpretar alguns signos típicos da brasilidade, inclusive a bandeira e as cores de verde e amarelo. 

Enquanto a cultura brasileira, e especificamente, a música pop nacional, experienciava um de seus melhores momentos (pré-pandemia) e continua recebendo atenção internacional por agora, política e economicamente o país passa por um dos momentos mais duros dos últimos tempos, que é repercutido internacionalmente na mídia. Como o entretenimento, a moda e a indústria cultural respondem a isso? 

De alguma forma, dizendo que este Brasil não é o nosso e que a nossa ideia de patriotismo é bem diferente. Longe da alienação, é uma forma de dizer que não se é conivente com o que acontece, mas que ainda existe um orgulho em sua origem. Orgulho esse, que não desconsidera as mazelas e problemas do país em um delírio ufanista, mas pelo contrário, usa de sua própria cultura para criticar, refletir e, acima de tudo expressar um desejo de trazer de volta o país e seus símbolos a quem eles realmente pertencem: seu povo. 

É o que faz Anitta em sua carreira, em Girl From Rio, por exemplo, ao resgatar a estética brasileira e contar sobre um Rio “pra-gringo-ver” – a música até é em inglês – mas não é o Rio de Janeiro da elite, do Leblon ou de Copacabana, mas das periferias, do povão, buscando exaltar o bonito no “vulgar”. E se você achava que isso era a cara da Anitta, é um movimento. 

Em Gueto, Iza reconstrói suas origens de forma lúdica e ressignifica a bandeira nacional, sem a faixa de ordem e progresso. Porque, se a Iza celebra a bandeira, você sente que também pode; o brasil dela pode ser o nosso, não o do presidente. Para ela, existe romance nas ruas coloridas do gueto, há glamour no sacolé. 

Pabllo Vittar também faz esse movimento, em Batidão Tropical, quando resgata as músicas que ouvia quando jovem e a memória e herança cultural norte-nordestina, tão marcada pelo brega. Mais ou menos pelo mesmo caminho, vai a Misci, marca que sempre pauta a brasilidade e que, em sua apresentação na SPFW, reflete sobre a brasilidade a partir da boleia dos caminhoneiros e apresenta o desfile ao som de brega.

A Led também faz um movimento similar, quando celebra o afeto e a felicidade de pessoas LGBTQIA+ em sua coleção Casa LED e reapropria e reinterpreta a bandeira nacional com um veado e os dizeres “Abaixo o Macho Astral”. Nesse mesmo tópico, destaque para as camisas de Brasil triste e o cartaz “Um LGBTQIA+ para Presidente do Brasil” também da LED. 

Ou ainda, a Repolho SP, que, com a imagem sequestrada da bandeira do Brasil, busca resgatar o simbolismo nacional através das bandeiras estaduais.

A indústria cultural vem reapresentando o nosso país – não só pra quem vê de fora, como pra gente mesmo, que mal reconhecemos onde estamos. Quando rejeitamos este país como nosso, ninguém ganha; perdemos noção da fertilidade que a nossa cultura tem, do quão potentes são as coisas por aqui (apesar dos pesares). Daí, celebrar a parte tropical, quente, diversa e temperada (e, em todos os clipes citados, mostrar brasileiros diversos, estilosos, gente de verdade!) é uma forma de reinventar a relação do público com o brasilzão – a parte que merece alguma celebração, pelo menos.

Se é inteiramente eficaz, não dá pra saber. Mas é um reflexo do que vem acontecendo na rua, até nos protestos de oposição: a bandeira do Brasil nada mais é que um símbolo, que pode ser atravessado por inúmeros significados (pró-diversidade e pró-democracia, inclusive). 

Afinal, para se empenhar em amar e querer salvar o país, temos que, primeiro, voltar a reconhecê-lo como nosso.

Santo de Casa

O Santo de Casa é um portal independente que busca democratizar e desconstruir as narrativas da moda. Produzimos conteúdo sobre moda independente, arte, cultura e design! Além de uma cobertura mara sobre tudo o que rola na cena de Moda Local de Beagá, de onde somos!

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