Qual é a nova cara da Alta Costura?

À medida que a semana de alta costura se encerra, cabe a pergunta: qual o novo rosto (e corpo) da Haute Couture? É sobre a tradição das casas de moda, sua maestria na costura e trabalho manual, ou um real espaço de expressão de sonhos e das ideias mais criativas de seus diretores criativos? Entre Pyer Moss, Balenciaga e Chanel, vimos um pouco de tudo isso e muitos questionamentos, mas afinal, o que se espera atualmente de uma coleção de Alta Costura? 

Por definição, a Haute Couture diz respeito a uma série de técnicas e especificações de costura e criação de roupas que definem um seleto grupo de casas como aptas a serem chamadas de Alta Costura, o que, sim, diz respeito à produção artesanal e excelência na costura e criação de peças de roupas. Mas as regras mudam. 

REGRAS DEVEM SER QUEBRADAS

Posteriormente ao seu desfile pela Pyer Moss, vale dizer: o primeiro homem negro a ser convidado a apresentar uma coleção na Semana de Alta Costura, Kerby Jean-Raymond postou uma foto no seu instagram com a legenda: “Nós não estávamos aqui quando eles escreveram as regras, então com todo respeito, f*da-se sua tradição”

Com o tempo, inovações têxteis e crescimento das marcas, a expectativa, bem como as definições sobre a Alta Costura foram se readequando. O trabalho primoroso de costura deixa de ser um diferencial e se torna um pré-requisito, afinal, com ateliês gigantescos e os melhores profissionais a seu dispor, exigir apenas uma boa costura parece pouco para as gigantes do luxo. É aí que outros fatores começam a entrar em jogo. A Alta Costura é o extremo, na qualidade, na costura, na tecnologia, na história e no conceito.

A partir disso, se torna mais fácil compreender essa nova fase e por que agora tem Jeans na Alta Costura. 

Iris Van Herpen foi uma das pioneiras em trazer a inovação e tecnologia como protagonistas nessa nova “era” da Alta Costura e, ao usar impressão 3D e outras tecnologias, repensa a ideia de que a Alta Costura deve ser apenas sobre trabalho artesanal e costuras primorosas, mas também é sobre o auge da moda, da criatividade e da fantasia. 

Regras são feitas para serem quebradas, especialmente na moda, e, nesse sentido, Demna Gvasalia fez um ótimo trabalho com sua coleção de Alta Costura da Balenciaga, marcando o retorno da marca ao setor. Com grande respeito à história e legado de Cristóbal Balenciaga, design e costura primorosos – seguindo o que dita a definição -, e uma boa quantidade de ousadia e de renovação, ao trazer códigos do esporte, do street e o jeanswear para a passarela da Alta Costura. 

Nesse sentido, o trabalho de Kerby Jean Raymong na Pyer Moss também faz muito sentido. Trazer uma série de invenções de criadores negros que foram historicamente preteridos, em uma das passarelas mais brancas do mundo, no primeiro desfile de um homem negro na Alta Costura é potente e envia exatamente a mensagem que ele queria: nós não fomos consultados quando vocês criaram as regras, então eu não preciso seguí-las. Nesse caso, no entanto, apesar da força do conceito e do trabalho de Kerby, como pontuado por uma série de críticos, a coleção deixa a desejar nos outros aspectos da alta costura: no design primoroso, no trabalho artesanal e na excelência da costura. Em um post viral no LinkedIn, William Taswell pontua isso, e também aponta uma série de outros nomes de designers negros que poderiam ter cumprido melhor as definições de Alta Costura, sem deixar de lado a dose necessária de provocações que esse acontecimento pede. 

Talvez por isso, que apresentações como a da Chanel e da Dior sejam recebidas com tão pouco entusiasmo. É verdade, elas seguem à risca os fatores determinantes da Alta Costura, o trabalho têxtil é impecável, os tecidos e o design, além de homenagear a história e tradicionalidade da Alta Costura. Mas com uma história tão excludente e que gera tão pouca identificação, talvez o consumidor esteja apenas esperando algo novo e provocativo, o que não parece ser o caso aqui. 

A COUTURE MASCULINA

Valentino Haute Couture 21-22

Se estamos falando da nova cara da Alta Costura, outro fator que chama a atenção é como modelagens masculinas têm começado a aparecer nessas passarelas que antes eram exclusivamente feitas para o público feminino. Os homens aparecem na Alta Costura da Balenciaga, da Fendi, Giambatista Valli e Valentino. Sobre isso, Demna Gvasalia pontua que queria acabar com a distinção de gênero na Alta Costura, e Pierpaolo Piccioli, da Valentino também afirmou que: “não é Alta Costura masculina ou feminina, é apenas Alta Costura”. Bom, se estamos falando sobre a Alta Costura quebrar regras, isso parece se encaixar como uma luva. 

Além disso, o homem moderno está se tornando cada vez mais confiante com a moda, as coleções masculinas tem chamado mais atenção e recebido uma atenção maior do que nos últimos tempos e o consumo de moda pelo público masculino tem crescido cada vez mais. Então, por que não incluir modelos e modelagens masculinas na Alta Costura? Ou, ainda, trazer as técnicas da Alta Costura para as coleções de moda “masculinas”? 

Fendi Haute Couture 21-22

É claro que homens estão longe de serem os principais consumidores de Alta Costura, ou sequer representar uma fatia representativa,  mas no Ready-To-Wear, essa porcentagem tem crescido significativamente e para efetivamente sabermos o potencial do homem consumidor de Alta Costura, primeiro precisamos criar um produto, certo? 

POR HOMENS, PARA MULHERES

Por último, falando de Alta Costura, Moda para Homens e o futuro do ramo, não podemos deixar de questionar: quem são as pessoas criando essas coleções? De todas as 13 coleções de Alta Costura apresentadas (no calendário oficial), apenas 3 foram criadas por mulheres, o que por si só já parece bastante desigual, mas é agravado quando pensamos que é um produto feito majoritariamente para o público feminino. 

A ideia de homens criarem roupas para as mulheres pode ser problemática em alguns sentidos, em primeiro lugar, pelo chamado “male gaze”, ou, olhar masculino: que é a ideia de criar roupas pouco funcionais ou muito pautadas na sexualidade, é como criar roupas para mulheres que na verdade são para homens verem. Ainda que grande parte desses designs sejam criadas por homens gays e, portanto, a sexualização não seja o principal fator, a ideia da “musa” também é problemática e pouco realista. 

Isto não é para dizer que designers homens não podem criar roupas para mulheres, mas sim, para questionar a absurda desigualdade e disparidade entre os gêneros nas posições de poder na moda e, especificamente, na Alta Costura. 

À medida que essa nova Alta Costura vem se desdobrando, é importante se tornar flexível aos padrões tradicionais a própria Câmara francesa demonstra isso ao convidar a Pyer Moss – apesar de que não sabíamos o que esperar à época, ninguém imaginava que Kerby faria uma Alta Costura tradicional.  – sem esquecer suas origens e preceitos iniciais. 

Então Moda (ou pelo menos, couture) é arte? Como disse Pierpaolo Piccioli em sua coleção, não. A arte é completa em si, sem precisar de significado (questionável), ao passo que a moda sempre serve a um propósito ou finalidade, normalmente comercial. A história não nos deixa mentir, a moda (veja bem, estamos falando da moda, não da indumentária), historicamente, tem sua origem em uma finalidade econômica e comercial de erguer e potencializar a  economia francesa e soberania sobre outros países. 

Isso parece cair como uma luva quando falamos de uma nova Alta Costura, não?

Valentino Haute Couture 21-22
Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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