Retorno Triunfal: NYFW, MET Gala e Neocolonialismo

Entre a NYFW e um MET Gala cujo tema e exposição vigentes falam sobre a história da moda americana (norte americana*), os EUA parecem viver um delírio ufanista desde a reabertura das cidades e o suposto ‘pós-pandemia’ que o país vive. 

De monopolizar as vacinas até um real show de fogos de artifício quando a cidade de NY reabriu, os EUA estão empenhados em mostrar uma espécie de vitória sobre a COVID-19 e servir como uma espécie de vitrine para o mundo do que é a vida pós-pandemia, mesmo que eles mesmo ainda não estejam vivendo essa realidade. Com uma população numerosa se recusando a tomar vacina e um movimento forte dos antivaxers nos EUA, inclusive, com diversas celebridades que amamos – ou amávamos? – a variante Delta tem feito estrago por lá, apesar do retorno de algumas restrições e do passaporte da vacina. 

Nos EUA, que começaram seu esquema vacinal ainda no ano passado, os totalmente imunizados são aproximadamente 52% e os parcialmente imunizados são 60%. Já os números de mortes diárias por COVID-19 nos EUA já tem ultrapassado os milhares/dia nos últimos dias, com mais de 2 mil mortes notificadas em 20/09 e 207 mil novos casos na mesma data. 

Mesmo com essa realidade, eventos como o VMA, MET Gala, NYFW com shows presenciais e estádios lotados continuam a acontecer nos EUA e a situação da COVID-19 parece ser varrida para debaixo dos tapetes por lá, em busca de manter uma imagem de país modelo e um retorno triunfal ‘pós-pandemia’ e ‘pós-Trump’. 

Esse tal delírio ufanista tem nome e estratégia e se chama neocolonialismo ou imperialismo cultural, o processo em que os EUA – bem como outros países – historicamente exerceu sua dominância e soberania mundial através (não só do militarismo) da influência e dominação cultural, principalmente – mas não exclusivamente – sobre os países da América Latina. No Brasil, esse processo tem ainda o nome de Americanismo e é especialmente notório desde o fim da Primeira Guerra Mundial, apesar de perdurar até hoje. 

Para a manutenção dessa influência e hegemonia cultural dos EUA, o pioneirismo na vitória sobre a COVID-19 e a retomada – mesmo que irresponsável – da ‘vida normal’ são passos fundamentais. Não por acaso, a tentativa de reviver seus principais eventos culturais, como as premiações e shows, foram prioridade, com eventos ainda em 2020, mesmo que com restrições. Isto é, pois com audiências globais sobre estes eventos se dá a manutenção da indústria cultural norte-americana. 

E o que isso tem a ver com a moda?

Absolutamente tudo! A moda, historicamente, sempre foi uma das principais ferramentas do capitalismo, da exclusão e da dominação desde seu surgimento. A New York Fashion Week foi a primeira semana de moda a retornar em formato presencial, com desfiles ao vivo com plateias e dezenas de pessoas nas ruas, sendo fotografadas aos moldes do streetstyle. 

A semana de moda se encerrou no MET Gala, um dos maiores eventos da moda a nível mundial, que tinha o tema de Americana, e para a exposição do Metropolitan Museum, o tema de In America: A Lexicon In Fashion, em uma grande ode à moda norte-americana. No entanto, o grande retorno triunfal da moda e da indústria cultural norte-americana parece andar aos trancos e barrancos. 

No MET Gala, vale dizer que o tema foi pouco seguido, ao que se esperava uma grande valorização de designers norte-americanos se tornou um grande embrolho sem muita linha de raciocínio e pouca representatividade de designers pretes. Grande parte dos que de fato seguiram o tema, optaram fazê-lo em forma de protesto, criticando a falta de representatividade ou elucidando suas origens e os processos migratórios, como a própria Rihanna, estrela do baile. Afinal, os EUA são um país de imigrantes. 

Enquanto o tapete vermelho do MET acontecia a todo vapor, em uma grande demonstração da opulência das elites norte-americanas, também ocorria um protesto do lado de fora, de grupos abolicionistas e do Black Lives Matter. O protesto foi recebido com violência policial e diversos protestantes foram presos na situação. Além disso, o impacto da COVID-19 sobre os EUA volta a aumentar e abafa o barulho da indústria cultural, além de preocupar autoridades. 

A indústria cultural americana e as tragédias

Se tudo isso ainda parece meio conspiratório demais para você, vamos dar uma volta no passado para pensar em como os EUA reagem à tragédias históricas segundo o recorte da indústria e imperialismo cultural. De 1918 a 1920, os EUA viveram a pandemia da gripe espanhola, um cenário similar ao que vivemos atualmente. Com o fim da pandemia, chegaram os opulentos e hedonísticos anos 20, quando os EUA prosperaram culturalmente na música, no cinema, na moda e joalheria e nas festas. 

O fim dos chamados ‘Roaring Twenties’ foi em 1929, quando a Bolsa de Valores Norte Americana quebra e dá início a uma massiva crise nos EUA. Pouco tempo depois, em 1931, surge o termo American Dream, criado para justificar o grande Sonho Americano, de ir para os Estados Unidos e ter sucesso, massivamente utilizado para designar uma utopia norte-americana onde qualquer um – e principalmente imigrantes – poderiam realizar seus sonhos através do trabalho árduo. Apesar de ter sido cunhado e utilizado bem antes, a ideia do ‘American Way Of Life’, de que o jeito americano de viver era o melhor e mais próspero, também ganha muita força nesse momento, para recuperar o orgulho e auto-estima dos americanos, bem como uma hegemonia cultural sobre os países da América Latina. 

Bom, vamos então para talvez a mais notória tragédia da história dos EUA: o 11 de setembro. O incidente do 11 de setembro de 2001, aconteceu quando os EUA viviam um período de grande efervescência cultural e grandes símbolos e ícones da cultura americana foram criados nesse período, no início dos anos 2000. Vale dizer também que o 11 de setembro aconteceu durante a NYFW daquele ano. 

O impacto do 9/11 foi tão gigante sobre a indústria cultural, músicas foram proibidas, ou desrecomendadas por referências a aviões, palavras como ‘Crash’ e ‘Egyptian’, ao passo que outras como ‘Only in America’, ‘New York, New York’ e ‘New York State Of Mind’ e outros hinos nacionalistas e esperançosos foram incentivadas e começaram a dominar as paradas de sucesso. Fonte: VICE. 

O designer norte-americano Miguel Atrover, da Saint Miguel, que experienciou grande sucesso na época, foi inevitavelmente à falência após o 11 de setembro, por ter apresentado uma coleção que fazia referência a hijabs e outras vestimentas árabes ainda em fevereiro. A narrativa do terrorismo e dos americanos salvadores se tornou ainda mais presente no cinema e na televisão desde então e os inimigos – que em anos anteriores eram os russos – se tornaram personagens do Oriente Médio. 

Segundo especialistas, o ciclo de tendências – ou seja, o tempo médio em que tendências demoram para voltar ou serem reinterpretadas – é de 20 anos, o que bate exatamente com a data do 11 de setembro e com o boom de diversas tendências dos anos 2000. Isso quer dizer que possivelmente vamos viver ainda mais as tendências de antes e depois do 9/11, basta olhar para o VMA, deste ano, um grande tapete vermelho de referências dos anos 2000. 

São inegáveis os esforços da indústria cultural norte-americana em se reerguer e recuperar a hegemonia cultural depois de tragédias – atualmente, a COVID-19 e Donald Trump -, mas, com um potente movimento antivax, a pandemia voltando a assustar por lá e um clima político e racial ainda tenso, pode ser que o tal retorno triunfal precise esperar.

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

Uma resposta para “Retorno Triunfal: NYFW, MET Gala e Neocolonialismo

  1. Eu adorei o texto. Todas as relações culturais foram muito bem realizadas, além de que o apoio em suporte histórico não faltou neste texto. Muito bem colocado.

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