Precisamos falar de Decrescimento

Novas perspectivas para a sustentabilidade na moda

Na COP26, conferência internacional sobre sustentabilidade, uma das palavras de ordem foi o decrescimento (degrowth). Isto porque o tal do desenvolvimento sustentável tem se mostrado cada vez mais um mito para o setor privado.

Quando falamos de sustentabilidade em relação a grandes empresas, frequentemente ouvimos sobre metas de crescimento sustentável, compensação de carbono, redução de emissões ou geração de lixo. Isto é, formas de continuar crescendo de maneira “sustentável” mas agora, as discussões se voltam sobre o decrescimento ou a desaceleração. 

A partir da compreensão de que nenhuma produção é essencialmente sustentável no sistema capitalista, perde-se o sentido em pensar em um crescimento sustentável. Inclusive porque, não há porque as gigantes do mercado continuarem crescendo, produzindo mais, se desenvolvendo e concentrando cada vez mais renda em seus sócios e diretores. Por isso, planos de decrescimento e desaceleração de diversas marcas, incluindo gigantes da moda, começaram a ser postos em pauta durante a COP26 e devem ser discussões cada vez mais frequentes a partir de agora. 

Durante essa semana, um novo relatório apurado pelo The Guardian surgiu, ligando gigantes do mercado de moda, como o grupo LVMH, Zara, Dior, Vans e outras a práticas exploratórias e ao desmatamento da Amazônia. A conexão? O couro. Essas marcas estão ligadas à importação de couro brasileiro por empresas nacionais, que, por sua vez, estão conectadas à exploração e desmatamento ilegal da Amazônia para criação de gado.

A pecuária é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa e gasto de água no mundo. O Brasil, por sua vez, tem uma dos maiores rebanhos bovinos no mundo. Com a terrível legislação ambiental do atual governo, o desmatamento para criação de gado tem apenas aumentado e devastado a passos rápidos a Amazônia. 

O Brasil também foi um dos únicos países do mundo que teve um pico de emissões de gases estufa durante a pandemia, na contramão do globo, em decorrência ao desmatamento desenfreado da Amazônia. Mesmo assim, segundo o ITMB (Índice de Transparência da Moda Brasileira), do Fashion Revolution, nenhuma marcas brasileiras tem um compromisso com o desmatamento zero. Apesar de alguns grandes nomes internacionais terem se comprometido com a redução do desmatamento, o relatório do The Guardian revela o oposto sobre as mesmas marcas. 

Esse é um alerta que a designer britânica Stella McCartney já havia feito na COP26. Stella sempre advogou pelo fim do uso de pele e outros materiais de origem animal. Na conferência, ela afirmou que a moda só pode pensar em realmente ser sustentável quando abolir, de vez, o couro. Como substituto, a marca de Stella McCartney tem se dedicado ao Mylo, uma nova tecnologia de produção de couro através de cogumelos, disponibilizada para a indústria. 

Apesar de ser fácil antagonizar essas marcas de moda, é preciso entender que isso também é sintomático do crescimento desenfreado dessas gigantes capitalistas. Com cadeias produtivas mundiais, dificulta-se (e falta interesse) em fiscalizar todos os pontos da linha produtiva, do extrativismo material ao produto final. É o mesmo caso, por exemplo, da ausência de fiscalização que levou à tantas denúncias de trabalhos análogos à escravidão na moda há alguns a nos atrás. 

Por isso, um futuro possível precisa, necessariamente, considerar o decrescimento das gigantes capitalistas do setor privado. Para essas, não existe desenvolvimento sustentável. 

Lucas Assunção

Publicitário formado mas que se identifica como Comunicador. Apaixonado por moda desde os 13 aninhos e querendo resolver todos os problemas da indústria. Só que não dá pra fazer tudo sozinho né, vem comigo?

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